quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Não há rapazes maus






A propósito de Vem aí uma geração de rapazes frustrados, citações em itálico, comentários a negrito e conclusão mais ou menos normal.













"O problema não são os bons resultados alcançados pelas raparigas, mas as fracas classificações obtidas pelos rapazes e aquilo que isso implica: a responsabilidade da escola nesta situação, o que isto está a provocar neles e nelas, e as consequências sociais do insucesso escolar masculino. "Vamos ter uma geração de rapazes frustrados e excluídos dos sistemas escolares e profissionais por incapacidade de rivalizar com o género oposto", prevê a socióloga da educação Alice Mendonça nas respostas que enviou, por e-mail, às questões do P2."



     Dando de barato que é necessário – sempre – reconhecer que as escolas possam não saber lidar com este problema, não seria de colocar a hipótese de estarmos diante de um problema com causas a montante da escola? Será que um aluno nunca poderá ser co-responsabilizado pelos seus resultados?


"Isto está a acontecer não por os rapazes se terem tornado, de repente, mais estúpidos, mas em grande medida, avisam os investigadores, por eles estarem a ser ensinados e avaliados num sistema que valoriza as características próprias das raparigas e penaliza as dos rapazes."



     Mais uma vez, a culpa não pode ser dos rapazes.



"(...) para os professores, na sua esmagadora maioria mulheres, o modo como as raparigas se comportam e trabalham é "mais conforme com as suas representações do bom aluno ou aluno ideal" - o que poderá conduzir a uma "sobreavaliação" das alunas e a uma "discriminação" dos alunos.


Para a sua tese de doutoramento, a socióloga e investigadora do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, Teresa Seabra analisou, por seu turno, os resultados escolares de estudantes do 2.º ciclo do ensino básico (11-12 anos). Comprovou que "os resultados dos rapazes e das raparigas se igualavam quando excluía da amostra os alunos com problemas disciplinares", o que a leva a concluir, disse ao P2, que, "como o comportamento afecta de modo significativo o aproveitamento, a pouca conformidade às regras escolares estará na base dos piores resultados dos rapazes". A "atitude", o comportamento dos rapazes, estará a comprometer irreversivelmente os resultados da sua avaliação.

     Há uma insinuação inicial de que o problema poderá estar no facto de a classe dos professores ser maioritariamente constituída por mulheres, essas filhas de Eva.
     Mais à frente, parece haver luz ao fundo do túnel: os rapazes, afinal, se não tiverem problemas disciplinares conseguem um aproveitamento igual ao das raparigas. Se quisesse brincar um bocadinho (e quero), isto de uma pessoa se portar bem é feminino ou efeminado.
     Relativamente à referência aos resultados da avaliação, não será que o comportamento dos rapazes está a comprometer irreversivelmente a sua aprendizagem e, portanto, o sucesso escolar? Não será lógico que um aluno que dedique o seu tempo a portar-se mal aprenda menos?



"Especialista em assuntos de Educação, o sociólogo francês Christian Baudelot defende que, antes de mais, aquilo que é pedido pela escola é a interiorização das suas regras, mas que estereótipos sociais ainda dominantes valorizam nos rapazes o desafio, a violência e o uso da força - um verdadeiro "arsenal antiescolar". As raparigas, pelo contrário, são socializadas na família em moldes que facilitam a adaptação às exigências escolares: mais responsabilidade, mais autonomia, mais trabalho. "Trata-se de um conjunto de competências que as torna menos permeáveis à indisciplina", observa Teresa Seabra. No ano passado, em Espanha, 80 por cento dos alunos com problemas disciplinares eram do sexo masculino.


Alice Mendonça confirma que as raparigas, "mais conformes às regras escolares", ganham uma "vantagem decisiva" sobre os rapazes quando chega o momento da avaliação. Em Portugal, como também noutros países, o comportamento passou a contar para a contabilização da nota final atribuída aos alunos.


Teresa Seabra defende que se tornou indispensável lançar um debate sobre a actual forma de avaliar. "No momento actual, a escola é chamada a avaliar também o "saber ser", mas nem sempre foi assim e não tem que assim ser", argumenta."

     A conclusão final acerca do peso que o comportamento deve ter na avaliação de Teresa Seabra é deliciosa: se nem sempre foi assim, não precisa de ser assim. Mais uma vez, não há uma palavra sobre a necessidade de ajudar os alunos a modificar o comportamento; a solução estará em não incluir o comportamento na avaliação do aluno.


""É perverso que se avaliem instâncias cognitivas com base em comportamentos. Se um aluno indisciplinado aprende, a sua aprendizagem tem de ser reconhecida", sustenta Nuno Leitão, antropólogo, mestre em Ciências da Educação e director da cooperativa A Torre, um colégio de Lisboa que tem a sua matriz inicial no Movimento Escola Moderna, que propõe uma pedagogia alternativa àquela que é comum aos sistemas oficiais de ensino."

     A aprendizagem tem de ser obviamente reconhecida, mas o que é perverso é afirmar que os professores transformam comportamentos em “instâncias cognitivas” (seja lá isso o que for). O que se passa é que a avaliação dos alunos contempla aspectos cognitivos e aspectos comportamentais.



Concluindo:

     O que está em causa não é só, nem sobretudo, o facto de os rapazes estarem a ser ultrapassados pelas raparigas. Esse facto até traria, de modo ligeiramente perverso, alguma justiça à História, como lembra o João José Cardoso. O problema está no crescimento da indisciplina e nos reflexos que isso tem na aprendizagem (vou repetir, que pode haver dúvidas: aprendizagem). Alterar os critérios de avaliação de modo a que isso não se reflicta nas classificações dos alunos não é solução, é cosmética.
     Quer isto dizer que a sociedade e a escola (outra vez: a sociedade e a escola) devem abandonar esses jovens? De maneira nenhuma e, do ponto de vista das escolas, ficam algumas soluções possíveis: turmas mais pequenas e técnicos especializados nas escolas para que os jovens problemáticos tenham acompanhamento personalizado.
     Finalmente, é cada vez mais irritante assistir a este desfile de teóricos de gabinete que vomitam conclusões com base em estatísticas. Talvez não fosse má ideia os sindicatos e/ou os movimentos de professores e/ou outras começarem (começarmos) a criar condições para que sejam feitos estudos baseados, efectivamente, no terreno.

7 comentários:

  1. Ora ainda bem que não sou esquisita! Quando li o artigo, pensei isso exactamente: que estranho não concluir que talvez venha a ser mais produtivo educar (em casa e na sociedade) os rapazes de outra maneira. Afinal, caraças! já passámos a fase de caçadores/recolectores, não há qualquer necessidade de continuar a educar rapazes agressivos, indisciplinados, desatentos ...
    E não pude deixar de achar «piada» - a escola esteve vedada às raparigas durante séculos, deixaram-nas entrar a conta-gotas e a contragosto, ainda não a conquistaram de todo e já «estudiosos» da treta se aprestam em querer excluí-las seja lá como for.

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  2. Ora aí está, pode ser essa a solução: proibir as raparigas de ir à escola. Afinal, elas agora vêm, mas nem sempre foi assim.

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  3. Caro Fernando, parece-me que você está a fazer duas confusões: entre responsabilidade individual e responsabilidade colectiva, e entre poder e dever.

    Quanto à primeira: se compararmos os resultados escolares de um dado rapaz com os duma dada rapariga e os dele forem inferiores, é claro que não é à sociedade nem à escola que se podem apontar responsabilidades. É antes de mais a ele próprio: mesmo que eventualmente haja causas para esta disparidade que ele não controla, há outras, com maior peso, que ele pode controlar se quiser. Do mesmo modo, os bons resultados obtidos pela rapariga são antes de mais mérito dela, e só residualmente podem ser considerados fruto das suas circunstâncias.

    Mas a questão muda totalmente de figura se considerarmos o conjunto dos rapazes e o conjunto das raparigas. O mau resultado colectivo de um dos grupos não pode ser devido exclusivamente a factores individuais. Um rapaz pode e deve ser responsabilizado pelos seus resultados, mas não pode nem deve ser responsabilizado pelos resultados dos outros rapazes. Tem que existir uma causa sistémica para esta disparidade, seja ela a que Alice Mendonça aponta, seja ela outra qualquer.

    A outra questão é simplesmente de lógica formal: o facto de uma coisa não ter sido sempre assim prova conclusivamente que ela pode não ser assim (é por isso que saber História é tão importante). O que o facto de uma coisa não ter sido sempre assim não prova é que ela não deve ser assim (nem o contrário, de resto).

    Durante muito tempo a maior parte das mulheres não teve acesso à escola nem à universidade. Quando este acesso se generalizou, a sociedade exigiu implicitamente às mulheres e às raparigas que se "masculinizassem" para poderem competir com êxito num meio que tinha sido desenvolvido para os homens. Não nos autorizará isto a considerar, ao menos como hipótese, a possibilidade de a sociedade actual estar a exigir aos rapazes que se "feminizem"? E, se for este o caso, será isto uma coisa boa ou uma coisa má?

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  4. Caro José Luís, obrigado pelo comentário.

    Quando comecei a lê-lo, percebi que, de alguma maneira, discordava de mim. Quando acabei de o ler, não percebi em quê e não há uma vírgula do seu comentário de que discorde. Deduzo que talvez eu tenha transmitido uma mensagem errada, por incompetência e/ou por ter a mania de me armar em engraçado.
    Para mim, o problema da aprendizagem dos rapazes deve ser resolvido, não por serem rapazes, mas por ser um problema. Se é importante conhecer as causas sistémicas, acredito que só se poderá resolver o(s) problema(s) através de uma abordagem individual. A sociedade, também através da escola, deve assumir essa responsabilidade que, sendo social, é colectiva. Essa será uma das maneiras de levar cada indivíduo a assumir as suas responsabilidades.
    O que verdadeiramente me irritou nesta notícia é a habitual estratégia de querer mascarar os problemas em vez de os resolver. Nenhuma destas alminhas propõe que se estude o problema nas suas causas para tentar resolvê-lo, preferindo alterar critérios de avaliação de modo a não prejudicar os alunos. No fundo, é a velha história de querer sucesso a qualquer preço. Se, por hipótese, excluíssemos o comportamento como critério de avaliação, isso não resolveria o problema do comportamento e, por sua vez, o da aprendizagem.
    É claro que nada disto significa que defenda a exclusão dos alunos problemáticos da escola. É certo que já tive muitos alunos com problemas de comportamento sem que isso lhes prejudicasse o aproveitamento e outros com mau aproveitamento e comportamento exemplar. Seriam tantas as histórias como os alunos.
    Finalmente, caríssimo, tudo a favor da "feminização" dos rapazes ou da sociedade em geral. Quantas e quantas vezes tenho criticado rapazes por não serem como as raparigas. Até lhe digo mais: quando vejo que uma rapariga não se dedica o suficiente critica-o por parecer um rapaz.

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  5. O que eu vejo é que os rapazes têm mais tendência que as raparigas a pôr em causa a autoridade do professor.

    Ora este "pôr em causa" pode significar duas coisas muito diferentes: por um lado pode ser uma reacção epidérmica e acrítica contra toda e qualquer autoridade, levando a actos gratuitos de indisciplina; por outro lado pode ser uma manifestação de cepticismo racional: uma coisa não é necessariamente correcta só porque o professor o diz.

    Um professor medíocre pode fazer um de dois erros: tolerar todos os desafios à sua autoridade, mesmo os que relevam da pura falta de disciplina e auto-controle; ou, no extremo oposto, reprimir todos esses desafios, mesmo os que relevam dum espírito crítico que ainda não está desenvolvido, mas pode já estar presente.

    Não quero com isto dizer que as raparigas tenham menos espírito crítico que os rapazes; muitas vezes até me parece que têm mais; mas tendem muito a não o manifestar.

    Um professor que seja indiscriminadamente permissivo está a premiar os comportamentos "masculinos" tanto na sua vertente desejável como na indesejável; se for indiscriminadamente repressivo estará, por outro lado, a premiar a tendência "feminina" de não manifestar dúvidas e objecções intelectualmente legítimas (ainda que possivelmente ingénuas) em relação ao que está a ser ensinado.

    Um professor mais talentoso e seguro de si não tolera desafios fúteis ou gratuitos à sua autoridade institucional, mas tolera e até encoraja desafios à sua autoridade intelectual quando eles resultam dum genuíno desejo de aprender. Com isto, estará a pedir aos rapazes que se "feminizem" naquilo em que é bom para eles que o façam; mas também estará a pedir às raparigas que se "masculinizem" na vertente que lhes convém.

    Desta maneira não estará a favorecer um dos sexos em detrimento do outro, e estará a praticar a abordagem individual que você preconiza.

    O problema é que esta abordagem individual só está ao alcance dos professores mais talentosos, que são por definição uma minoria. Precisamos dela, mas também precisamos de abordagens que estejam ao alcance da maioria dos professores. Estas terão que ser sistémicas; e para as podermos definir temos primeiro que saber se os nossos métodos e estilos de ensino estão ou não enviesados a favor de um dos sexos em detrimento do outro.

    Podemos criticar Alice Mendonça pela resposta que dá a esta pergunta, mas temos que lhe reconhecer o mérito de a ter feito.

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  6. Mais uma vez, concordo consigo e secundo-o na atribuição do mérito à pergunta feita por Alice Mendonça, mas sem andar obcecado por retirar mérito a ninguém, note que o José Luiz (e muitos outros que trabalham no terreno) já sabia desta diferença entre rapazes e raparigas há anos.
    E ainda concordo mais consigo, se me é permitida a expressão, na referência à necessária sensibilidade e segurança que um professor deve ter diante de um aluno que ponha em causa a sua autoridade.

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