quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Educação e suas falácias amestradas. Escola e sociedade devem ser mundos separados.



Ana Maria Bettencourt ao Público:

"Escola deve ter menos chumbos e garantir aprendizagem de qualidade "


 
 
     Para o caçador de falácias sobre Educação, há territórios que parecem reservas cinegéticas com uma abundância só comparável ao Éden. Um desses territórios é constituído pelos discursos de Ana Maria Bettencourt.
     As declarações feitas, ontem, pela senhora revelam aquilo que poderemos designar por vacuidade doutorada, um dos piores tipos de ignorância.
     O ponto de partida é o típico: olhar “para o que se faz noutros países”, aquilo a que poderemos chamar o lá-forismo (palavra derivada da expressão “lá fora”, usada como argumento único para defender que tudo o que é estrangeiro é bom e deve ser aplicado em Portugal, independentemente do contexto ou do valor intrínseco. Tem, ainda, a vantagem de rimar com aforismo). Confesso que, sendo uma pessoa pouco viajada, chego a Tui e já fico maravilhado só por ver letreiros em língua estrangeira. Tenho é a grande vantagem de já saber que sou um deslumbrado, um parolo, afinal (licenciado, é certo, mas um parolo, de qualquer maneira). É esta minha auto-consciência que me impede de fazer figuras ainda mais tristes, evitando ferir os outros com a exibição supostamente douta de uma sabedoria que não possuo: tapas em Tui não fazem de mim um especialista em cultura galega (embora façam de mim um português mais feliz).
     Ana Maria Bettencourt vive igualmente deslumbrada com o próprio verbo e confunde estadias com estudos, o que a leva a tomar a permanência ocasional numa escola estrangeira por um estudo aprofundado de um sistema de ensino ou da sociedade em que se integra.
     É absolutamente correcto, na minha opinião, que a retenção deva ser residual ou que os alunos devam ter direito a apoios individualizados. A verdade, porém, é que as escolas não estão suficientemente dotadas de recursos humanos para resolver os problemas com que se deparam. Uma das falácias recorrentes é, aliás, afirmar que o sistema está dotado de professores suficientes, quando se sabe que não está, pois as turmas deveriam ser mais pequenas e os apoios acabam por sobrecarregar o horários dos professores.
     Com pouca ou nenhuma inocência, a douta senhora liga implicitamente a existência de retenções à falta de qualidade do ensino. Tratando-se de uma afirmação que não pode ser verificada, constitui um acto de irrespondabilidade, tanto mais grave por ser proferida por quem tem cargos de responsabilidade.
     Depois de ter descoberto a roda na figura da escola sem retenções, Ana Maria Bettencourt incorre no habitual pecado da tribo eduquesa: "a escola pública terá de se bastar a si própria". A Escola deverá ser, portanto, encarada como um sistema autónomo relativamente à sociedade em que se insere e os problemas sociais (que redundam em ou acumulam com problemas psicológicos ou cognitivos) não devem ser tidos em conta.
     A esperada cereja em cima do bolo é a afirmação de que a escola "não pode estar à espera da ajuda das famílias, até porque muitas não podem ajudar os filhos, porque não andaram na escola ou porque não têm dinheiro para pagar explicações". O que deve ser exigido às famílias é que acompanhem a vida escolar dos filhos, o que é completamente diferente de os ajudar a fazer os trabalhos de casa ou tirar dúvidas nas matérias. A escola deve estar à espera das famílias e a sociedade deve estar à espera de ambas.
     Tudo isto é triste, tudo isto é eduquês. É Ana Maria Bettencourt no seu melhor, ou seja, no nosso pior.


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